USO DE MELATONINA NA CRIANÇA
Há mais de 20 anos que se usa a melatonina neste grupo etário, mas as indicações são muito precisas dadas as inúmeras interferências com as outras hormonas.
Escrevo sobre este assunto, pois o seu uso indevido, pela população em geral e por médicos, por desconhecimento das acções desta hormona, pode ter implicações graves na criança. E muitas vezes é o próprio pediatra que a indica indevidamente.
Todas as pessoas pensam que melatonina, erradamente de venda livre, é inócua e não é. São inúmeras as interferências quer a nível hormonal quer medicamentoso. Vou focar na criança, pois é meu objectivo alertar a população para este problema, pelos vistos desconhecidos dos pediatras e próprios pais, sendo de “venda livre”.
Isto tem de ser denunciado publicamente dado que a melatonina é uma hormona com imensas implicações em outras hormonas. As consequências são atraso do desenvolvimento da puberdade, por inibir hormonas que secretam as hormonas sexuais, inibição da ACTH (Hormona adrenocorticotrófica, que secreta o cortisol, tão importante na nossa saúde) e MSH (Hormona melatrófica, responsável pela nossa pigmentação cutânea).
Também diminui a insulina e aumenta a sensibilidade à glucose com perturbação do metabolismo glucídico, e se houver uma mutação no gene MTNR1B, podem desenvolver diabetes, por inibição da secreção.
A nível da tiróide, aumenta a conversão de T4-T3, ou seja da hormona inactiva tal qual ela é secretada pela nossa glândula tiroideia em hormona activa, podendo dar sinais de “excesso” e a criança acordar de noite com palpitações, sudação, e aumento da frequência cardíaca!
A suplementação com melatonina prolongadamente pode levar a bloqueio da acção da TSH nas células tiroideias com menos produção de hormonas tiroideias. Verifica-se que TSH, T3L e T4L têm níveis mais baixos nas pessoas suplementadas com melatonina.
O feto só produzirá melatonina após o nascimento. É a melatonina da mãe que imprime a regulação circadiana do feto, influenciando a sua saúde. O padrão de sono da criança é determinado na última fase da gravidez e regulado pela melatonina materna.
Nunca se deve dar porque “dorme mal”. Podemos vir a ter problemas na adolescência com atrasos no desenvolvimento sexual entre outros.
As indicações na criança são bem precisas e são elas:
. ADHD
. Autismo
. Invisual
. Paralisia cerebral e compromisso intelectual
. Cefaleia da epilepsia
Para agravar a situação, são usadas doses mais elevadas dos que as indicadas para os adultos, não sabendo que no caso da melatonina, onde o nosso corpo produz entre 0,01-0,1 mg ao dia, “less is more” sob consequência de um efeito de sobredose: dormir bem 3-5 horas e depois acordar e não conseguir voltar a dormir, sonhos muito “intensos”, “vívidos”, sensação da cabeça pesada ao acordar, manutenção da sonolência de manhã…
Urge alertar pediatras e a população em geral pois já temos uma sociedade doente, sobre medicada, infeliz e pouco produtiva e estamos cada vez a actuar mais cedo para agravar o estado actual da sociedade, ao sobre medicarmos quem não tem indicação e, neste caso, as crianças.
Como médica dedicada à Modulação Hormonal e cidadã de um Mundo, este cenário não é o que quero para os meus filhos e netos, e é verdadeiramente perigoso o que se passa, e pelos vistos, o INFARMED consente, sendo que esta hormona sendo considerada suplemento está sob jurisdição da DGAV, e os médicos, que pouco ou nada sabem de equilíbrio hormonal, limitam-se a medicar os utentes para os sinais e sintomas consequentes desse mesmo desequilíbrio, agravando o seu estado de saúde a longo prazo, e os próprios pais, sendo de venda livre, e por desconhecimento, também o fazem.
Segundo um estudo1 publicado no Lancet em 2023 parece ter havido aumento do consumo da melatonina de cerca de 600% nos últimos anos.
Já nem se coloca só o problema, gravíssimo, do uso indevido da substância com todas as consequências futuras da criança, mas devemos também ter em consideração todos os excipientes e invólucros, que “metemos” para dentro de um corpo imaturo, ao darmos um suplemento, e que pode ser muito nocivo, dependendo das marcas e se vão acumulando ao longo do tempo. Todos se esquecem deste problema e de que o fígado vai ter de “metabolizar” tudo isto.
Além do mais a melatonina pode comprometer a sua via de eliminação e alcançar níveis tóxicos de outras substâncias por este comprometimento, como diazepam, amitriptilina, escitalopram, lanzoprazole, omeprazole, fenitoina, warfarina, e outras, embora estas medicações não se utilizem (ainda) por hábito nas crianças.
Lembrar já agora que a Melatonina inibe também o efeito dos anticonvulsivantes (fenobarbital, carbamazepina, fenitoína, …).
Todos devemos repensar o uso indiscriminado que está a acontecer com a melatonina, e estarmos melhor informados, para não errarmos por desconhecimento da situação.
Dra. Ivone Mirpuri, Patologista Clínica, dedicada à Modulação Hormonal
H Edemann-Callesen, HK Andersen, A Ussing…- …, 2023 – thelancet.com